Enquanto dormia as minhas preciosas horinhas de sono (poucas!), ouvi o barulho do ar condicionado do quarto a desligar (sim, está sempre ligado e só faz é bem) e pouco depois um calor insuportável. Quando acordei percebi, estávamos naqueles dias sem eletricidade! Ainda não tinha acontecido, parece mentira.
Ainda assim nada mudou, banho de água fria (não preciso de água quente) e pedalar até ao touch a life. Lá, sim, houve uma grande diferença... as ventoinhas gigantes que estão sempre a rodar por cima da mesa dos voluntários estavam desligadas, ou seja, estava tudo a cortar vegetais e ao mesmo tempo a assar num forno.
Lá para as 9h/10h lá regressou a luz, até foi bastante rápido dado o que por cá se passa:
Só um aparte: reparo com isto da eletricidade que este ano já não ligo nada à bicharada, aos monges, ao clima, aos budas por todo o lado, aos templos e todas essas maravilhas que o Camboja oferece. Quando tiver tempo logo escrevo sobre tudo isso, não deixa de ter piada para quem vive numa realidade bem diferente.
Voltando ao touch a life, mais do mesmo. Preparar o almoço, muita brincadeira, hoje fartei-me de rir com a Mavis porque decidi que ia supervisionar o trabalho dela, e com 3 malaicas que me tiravam fotos no meio daqueles vegetais e diziam "vamos mostrar isto à tua mãe, vais ser o cozinheiro lá de casa agora". Mãe, não tenhas cá ideias parvas que eu também te posso mostrar a quantidade de arranhões e feridas que tenho nas mãos à pala do cortar vegetais ou tirar fotos da chafurdice que faço ali às vezes.
Depois chegam os miúdos e hoje quando chegaram já estava o almoço feito, assim houve montes de tempo para brincar com eles. Eles já me conhecem, a parte de dominar os números em Khmer é optimo para me meter com eles e saber as idades, mais os nomes, mais umas caretas e umas línguas de fora e acabo com montes de miúdos às cavalitas, nos ombros, pendurados nos meus braços comigo a levanta-los como quem levanta halteres no ginásio ou a segurar-lhes nos pés e eles estendidos de cabeça para baixo (acho que esta é a preferida deles). A Mavis essa acho que não viu, mas ri-se e repete muitas vezes "you love children Zé". Dos cambojanos que quanto mais parva e perigosa for a brincadeira mais eles se riem, gosto. Aqueles mimados que choram por tudo e por nada, não muito. Desses não há por cá.
Entretanto no pós-almoço, houve distribuição de roupa. Na quarta ja tinha havido para as meninas, hoje foi a vez dos rapazes. Uma peça para cada um e mesmo assim os últimos só ja apanharam cuecas ou nem isso, não havia para todos. A roupa é roupa que pessoas oferecem e que a Mavis ali distribui. Eu desta não sabia, mas tenho um apelo... quem tiver roupa de criança em casa, pode ser velha mas nas mínimas condições, e não souber o que lhe fazer ou que usualmente deixa num sitio qualquer sem fazer ideia onde é ela vai parar e a quem se destina, fale comigo que nós fazemos cá chegar umas coisas. Uma coisa é certa, o destino é o melhor e é recebida numa alegria enorme. Utilidade também terá portanto, vamos nessa Vanessa!
Findo o touch a life, pedalar até à Kilt. Hoje era sexta-feira, achei que não ia dar aulas porque tradicionalmente às sextas eles escolhem o que fazer. Espanto meu quando sem eu dizer nada foi tudo (hoje eram 12) sentar-se à volta da mesa na sala de aula e eu ali a engolhar a escrever a data porque não fazia a minima ideia do que ia ensinar. Lembrei-me das preposições, um sucesso. "In, on, in front of, between, behind, etc etc..", lá andávamos nós a movimentar canetas e volta e meia mandava também os miúdos para trás do quadro ou para debaixo da mesa. Se eles já estavam a achar piada, mais piada acharam depois, quando o bebé apareceu e o meti ao colo. Aí movimentava a criança, punha-a em cima da minha cabeça para eles dizerem o on, debaixo da mesa para o under, às cavalitas no behind, e por aí fora. Eles riam-se muito, o bebé também estava a adorar e no fim, ja sabiam aquilo tudo. Aposto que amanha não se lembram mas isso são pormenores sem importância.
Terminada a aula, foi altura de descobrir mais um talento, ou desenvolver vá. Enquanto estava nas preposições, os 2 rapazes mais velhos andavam a envernizar as portas de madeira. A seguir apareceu um balde de tinta. Naquela entrada maravilhosa que eles fizeram, faltavam pintar as escadas. O teacher não resistiu, aula acabada e estava eu de pincel na mão com aqueles 2, prontos para a pintura. Fez-se muito bem, era só os corrimões e não os degraus, apesar dum se ter enganado e ter deixado meio degrau todo verde (não fui eu). O que em Portugal seria um drama, cá foi uma festa a borrada que estava feita.
O pior ª(ou melhor) veio depois. É que eles pintaram os tijolos que construíram, na parte debaixo da casa mas o 2º andar que já lá estava continuava em madeira e da cor da madeira. Ao que parece, também era para pintar e sobrou para nós os 3. Os 3 em cima da mesa grande, aquela onde dou as minhas brilhantes aulas, a pintar o 2º andar. Depois, para chegar lá mais acima, outra mesa em cima dessa mesa. E para chegar lá mesmo acima, uma cadeira em cima da mesa, que por sua vez estava em cima da outra. Eu para aí já não subi, achei que perdia o casamento no próximo sábado se o fizesse!
Os 3 demos conta daquilo. As meninas pequenas pelo meio iam fazendo festinhas nas pernas do teacher, batendo na mesa, subindo para cima das mesas para também pintarem, fazendo chavascal com a tinta ou dizendo parvoíces. O resultado foi optimo, uns ténis que viraram verdes, menos umas calções e uma t-shirt, um teacher verde dos pés às cabeça, incluindo cabelo porque isto de pintar em cima duma mesa com um rapaz a pintar ali ao lado em cima doutra mesa e duma cadeira acaba por dar uma coloração nova ao meu cabelo. A casa, essa, ficou pintada.. bem ou mal, isso pouco importa. Agora chove a potes, até tenho medo de voltar a ver aquilo!
Mais umas semaninhas aqui e já sei fazer tudo o que é preciso para montar um casa. Pai, aquele terreno que ninguém sabe o que lhe ha-de fazer ainda existe? Pagas 3 viagens de avião, uns baldes de massa cimento e tinta e ganhas uma casa de férias para turismo rural. Que me dizes?
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ResponderEliminarAcho que vais mesmo dar em cozinheiro(pode ser só ajudante) cá em casa. As feridas, arranhões, acrescentando as queimaduras das minhas mãos podem ser partilhadas por dois, até porque já estás habituado! Quando comprar um ananás, fica descansado, que será guardado para que tu o arranjes.
ResponderEliminarO terreno continua livre...
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