Hoje deve ser o único dia em que se me dessem a escolher entre estar no Camboja ou em Portugal, eu talvez considerasse!
Em primeiro lugar, o meu primo Manel celebra os seus 18 e devo estar a perder uma festa daquelas... os pequenos grandes benfiquistas ja me pediram para replicar uma, querem repetir a do ano passado na casa nova. Vamos ver se a nova Kilt tem condições para tal (umas colunas para a musica é mais que suficiente) e se há orçamento mas, faça o que fizer por cá, não são os 18 do primo. Ao meu primo Manel, um grande abraço de parabéns.
Agora mais difícil... se no ano passado calhou falhar o aniversário da minha mãe, desta vez calhou falhar o do meu pai. Da mesma maneira que as coisas do lebres se partem por elas próprias ("partiu-se"), eu não escolho datas nenhumas de viagem, apenas "calhou" assim.
Posto isto, não. Não vou escrever uma carta como no ano passado, falta inspiração e seria uma falta de originalidade. Pai, não vou dizer que deixei a EY (ainda!) para virar agricultor, que me tornei monge budista ou que encontrei o amor da minha vida por cá. Também não vou contar que fiz uma tatuagem ligada ao Camboja, essa fica para veres em Portugal que eu quero ver a tua reação em directo.
Pensei então em ir aí fazer uma surpresa. Pensei mesmo, era um saltinho como quem vai ali ao Penedo Gordo comer um pão com chouriço e amanhã voltava. Só não o fiz porque, além de ser pouco original dado que já aconteceu, lembrei-me bem dessa ocasião. Lembro-me de estar em Madrid e por-me num avião a caminho de Portugal. Lembro-me de chegar a Beja antes de almoço e telefonar-te a dizer: "Pai, abre-me lá a porta de casa que eu não tenho chave". Lembro-me que teve que ser a mãe a ir abrir porque tu, tu não só pensaste como comentaste o seguinte: "Este gajo está tão bêbado no Erasmus que agora quer que eu lhe vá abrir a porta!".
Sobram-me poucas opções... Vou então fazer um momento de reflexão. Afinal de contas, se hoje sou como sou, em muito devo-o ao meu pai. São os pais que ensinam quase tudo aos filhos.
Foi o meu pai que me ensinou as coisas mais básicas da vida: ser do seu clube, a dizer obrigado e se faz favor, a responder às pessoas quando elas falam connosco, a não saltar nas poças, a não conduzir em contramão, a respeitar as passadeiras, a não faltar aos meus compromissos, a fazer a barba, a não me descalçar em qualquer casa que entre, a não comer com as mãos, a não arrotar à mesa, a não me meter com animais perigosos, a não comer insectos vivos ou a ir urinar à retrete em vez de ir atrás da árvore! Após refletir sobre os últimos dias (cá está a reflexão Zé Khmer), pergunto apenas o seguinte: MAS QUE RAIO DE TEACHER ÉS TU, OH ZÉ MANEL?!?!
Sim, é verdade. A parte do clube nem vou comentar, apenas recordo que aqui mora um tricampeão.
Adiante, se o obrigado eu sei dizer em Khmer, o se faz favor não faço a minima ideia portanto... temos pena.
Quanto ao desprezo... pois, este povo é super simpático e as pessoas têm sempre uma boa história para contar mas os "tuk-tuk, sir?" são tantos que eu acho que já nem os oiço, quanto mais responder-lhes.
O saltar nas poças.. rainy season. Eu até posso tentar evitar, mas experimenta andar de bicicleta debaixo duma tempestade numa estrada que é lama... é claro que não vês os buracos e acabas nas poças. No outro dia levava a gopro no cesto da bicicleta com uma chuvada enorme (levava porque tive a muito infeliz ideia de filmar o momento). Bati com tanta força num buraco que acabei com as pernas e braços dentro da poça à procura duma gopro que caiu e teimava em não aparecer no meio da terra.
As passadeiras e o andar em contramão... Pai, tu também me ensinaste a não ser parvo, vê lá se não te contradizes.
Os compromissos... hoje baldei-me às aulas.
Quanto à barba, vê esta foto do teu filho hoje:
É caso para dizer: só se vê barba.
E por falar em barba, hoje fez um sucesso enorme. Já que não dava para estar com o meu pai hoje, fui visitar o pai do Sovann com ele e o 2º rapaz mais velho, tal como tinha feito no ano passado. Mais um dia épico, como tantos outros nesta terra maravilhosa.
Aquele mercado local onde no ano passado todos se riam e comentavam o meu nariz, desta vez o assunto era a barba. Chamaram-me indiano!! Oh Zé Manel, branco, carapinha de preto e ar de indiano?! Que genes são estes afinal?
Nesse mercado há de tudo, peixes ainda vivos, cobras e mais cabeças de porco, vegetais com bicho e essas mer***. As fotos falam por si:
Nesse mercado há de tudo, peixes ainda vivos, cobras e mais cabeças de porco, vegetais com bicho e essas mer***. As fotos falam por si:
Nas 2 horas de caminho até lá conheci verdadeiramente o Camboja. A parte da pobreza extrema que se vê ao sair da cidade é assunto que já está mais que relatado e que hoje não é dia de relatar. Fora isso, 3 gajos metidos numa mota a ver campos de arroz infinitos, com um homem lá no meio a trabalhar. Animais por todo o lado, incluindo cobras e búfalos (cá está a dos animais perigosos). Deixo algumas fotos e videos da viagem:
Chegados ao destino, fui recebido com uma alegria imensa. O pai do Sovann ainda se lembrava de mim e apesar de ele só falar Khmer, até comunicámos. A casa é o que se vê na foto, madeira onde a malta se deita la para trás e onde a malta come e cozinha. Casa de banho... é atrás da arvore (cá está). Contudo, tem piscina (vejam a foto da piscina) que o Sovann me fez questão de ir mostrar.
O almoço foi arroz, o que eles comem sempre, mas desta vez com abóbora e carne que comprei no mercado para todos. Estava tão bom que tive que arrotar para parecer bem (cá está). Como entrada, e porque numa das árvores estava um enxame de abelhas, houve mel e gafanhotos. A parte do enxame é igual à do ano passado, vimos aquilo na árvore, eu fujo, eles fazem uma festa, pegam num pau e num isqueiro e aparecem com o mel. Eu desta vez nem quis ver a habilidade, uma vez chegou que só eu sei o sprint que fiz no ano passado.
No regresso ainda fomos ver a mãe da Sokim (aluna minha) que ainda se lembrava de mim. Isto porque segundo ela, a Sokim lhe estava sempre a falar do Teacher Zé mesmo durante o ano quando eu estava em Portugal. Além disso, tive aula de pesca... Hoje aprendi a pescar à cambojano! Felizmente que há alguém para me ensinar alguma coisa que eu aprenda Zé Manel, só contigo está visto que não me safava!
Por fim, o melhor de tudo. Lembram-se de ter dito no regresso à Kilt que me faltavam 2 pequenos grandes benfiquistas? Se a Soklay estava lá no dia seguinte, o rapaz que faltava está na vila a trabalhar. Foi optimo voltar a estar com ele, diz que vai despachar o trabalho rápido para voltar para Siem Reap na próxima semana e ainda apanhar as aulas do Teacher Zé. Assim, faltei aos meus compromissos de dar aulas, mas não faltei à obrigatoriedade de estar novamente com todos os meus pequenos grandes benfiquistas.
Portanto Pai, isto tudo para dizer que se houve coisa que tu me ensinaste muito bem foi a valorizar a familia. Darmo-nos sempre bem, ainda que a tua filha mais velha consiga ser insuportável, e, mesmo que esporadicamente, procurar estar com todos os que nos são próximos. Isso eu aprendi, e os nossos parentes cambojanos já estão todos vistos! Falta vires cá conhece-los!
Um grande abraço de Parabéns deste tricampeão!!
Obrigado, meu filho!
ResponderEliminarE para quem estava sem inspiração, bom... Não te ensinei que mentir é feio?
Também digo todos os dias aos meus pequenos grandes benfiquistas que não tenho mais rebuçados quando na verdade tenho uma mochila cheia deles. Faltou essa...
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