domingo, 25 de setembro de 2016

Todo o homem deve plantar uma árvore, ter um filho e escrever um livro!

Todo o homem deve plantar uma árvore, ter um filho e escrever um livro!!

Ora bem, a primeira vez que tive no Camboja escrevi um total de 65 posts no blog, alguns deles verdadeiras testamentos. Assim, tudo somado, considero isso como um livro escrito. Na verdade, dadas as 10.250 visualizações que leva até acho que seria um livro com algum sucesso ao ser editado, com potencial para me pagar a próxima viagem.

Posto isso, este ano restavam-me 2 opções das 3 coisas que um homem deve fazer na vida antes de bater as botas. Desta vez, optei por plantar uma árvore. Da próxima... só fica a sobrar uma!!

Sim, é verdade, hoje andei a plantar árvores. Superei o dia de ontem e acordei bem cedo. Às 7h já estava no War Museum, que é a caminho dos templos/kilt mas um bocadinho mais perto, uns 20 min de bicicleta. Ao que parece, o governo quer plantar no terreno Apsara e tornar a coisa ainda mais bonita e nós, voluntários, cá estamos para ajudar. Se no touch a life quem comanda as tropas é a Mavis, na plantação é o Moh. Os voluntários, esses, são os mesmos.

Se a malta foi toda de mota, havia um desgraçado que chegou de bicicleta, eu. Eu e 2 cambojanos que também foram, pois claro. Depois começou o festival. Tratámos de encher de terra sacos de plástico pequenos para depois lhe colocar as sementes. Foram muitos sacos mesmo, parecia que não acabavam. Se os asiáticos conseguem estar de cócoras muito tempo (e fazer aquele fenómeno que é estar de cócoras com os pés todos apoiados no chão) eu não sou capaz, portanto já estava sentado de pernas à chines no meio da terra que ia virando para os sacos. Depois, fomos plantar as árvores. Ou seja, já lá estavam também uns sacos de terra prontos com "árvores" ainda bem pequenas que estão na altura de ir para a terra. Eram muitas mesmas portanto vá de escavar buracos, todos alinhados, enterrar aquilo já sem o plástico, cobrir de terra e pisar com força. Não sei ao todo quantas árvores plantei, mas foi mais de meia dúzia. Poucas mas na verdade a minha função era outra. Estava de pá na mão, a escavar os buracos para os outros voluntarios mandarem para lá a árvore. Tarefa igual à do ano passado, a escavar, não para enterrar tanques mas sim pequenos troncos que originarão árvores. Estava eu, o Moh e os 2 cambojanos, um sol do pior e a transpirar por todos os lados.
No final tinha terra por todos lados, mãos e pés completamente cobertos, uma t-shirt nojenta e um cheiro nauseabundo.






Acabámos lá para as 9.30h e, hora de convivio. Voltámos à cidade, eles de mota e o desgraçado sempre mais atrás de bicicleta, para um cafezinho de pequeno almoço.

O programa seguinte começava as 11h. As outras pessoas do touch a life, como a Mavis, que não tinham ido à plantação tinham combinado um karaoke a essa hora. Dos que tinham ido à plantação e também iam cantar eramos apenas 3 e... estávamos um nojo. Cheios de terra, super mal cheirosos lá fomos nós como se nada fosse. "Such a freedom" comentou uma senhora quando nos viu. E se é, aqui vestes-te como queres, andas como queres, cheiras como quiseres que ninguém se importa, ninguém repara sequer e não foi por isso que nos deixaram de dar abraços quando chegámos. É uma sensação incrível, andar neste estado, de calção porco cheio de terra e tinta das pinturas, uma t-shirt nojenta de 1 dólar e a pedalar numa bicicleta que parece que vai partir a qualquer momento.

O karaoke foi memorável. Para mim até aqui o karaoke era um bar aleatório, com gente bêbada a ouvir e gente ainda mais bêbada a gritar para um microfone. Ali não, uma sala muito pequena com um sofá grande em frente à televisão e um aparelho ao lado para ires escolhendo as músicas. Ao todo eramos 9 e divertimo-nos imenso. Não tinha uma gota de álcool no sangue mas às tantas estava abraçado à Mavis e a encher os pulmões para berrar para um microfone o "my way" do Frank Sinatra. A primeira musica a passar foi o "man in the mirror" e sem duvida, aquela musica encaixa 100% naquelas pessoas e no que aquele grupo vive, faz e sente. Sabem, muitas daquelas pessoas são as que mais admiro na vida pelo que fazem todos os dias, todas as semanas, durante todo o ano. Considero-me um sortudo por as ter conhecido e me ter cruzado com elas, devolveram-me a esperança na Humanidade e... esta semana com tanto touch a life e tanta coisa senti-me realmente um deles. Senti-me parte integrante daquele grupo, uma base naquela estrutura e não podia estar mais contente com isso. Seguiram-se muitas outras musicas, algumas nem conhecia mas no meu sotaque british english cantava na mesma. Pelo meio apareceu o "locked out of heavens" cuja letra tem uma parte que é a seguinte:

"Oh, oh, oh, oh, yeah, yeah, yeah
Can I just stay here?
Spend the rest of my days here?
Oh, oh, oh, oh, yeah, yeah, yeah
Can I just stay here?
Spend the rest of my days here?"

Nessa parte, tinha toda a plateia a cantar efusivamente e a apontar para mim, como quem diz: é isto que vai naquela cabeça neste momento. É verdade, não engano ninguém.
Enquanto uns cantavam, outros levantavam-se do sofá para dançar, inventavam coreografias, sei lá, parvejavam e foi bom demais. Não interessa se sabes ou não cantar (e ainda bem dado o talento que aqui está - 1 vitoria no singstar em milhões de tentativas contra uma pessoa que se engasgou logo no inicio da musica), o que interessa é divertires-te e divertimo-nos muito. Estas pessoas são livres, estão realizadas com elas próprias, são felizes na sua simplicidade, humildade e fraternidade. Aquilo contagia.

O karaoke acabou às 13.30h, fui almoçar num instante e passei no quarto para tomar banho. Ideia estupida, para quê?

Fui disparado para a Kilt e com o calor que estava, cheguei lá a escorrer. Levei algumas roupas minhas para deixar aos mais velhos. Ao entregar... recebi. Na verdade já todos me tinham dado prendas (desenhos e pulseiras). Hoje o Sarath deu-me um peluche que tinha guardado que um amigo lhe deu há muito tempo, percebi que tinha muito valor para ele mas ele quer que o leve comigo. E levo, e guardo-o. O Sovann, que era o único que ainda não tinha dado nada, deu-me um cachecol que ele tinha andado a fazer nestes dias para mim... Palavras para quê? Quantos salários valem estas pequenas coisas?

Quando cheguei os pequenos foram todos esconder-se para eu os procurar, uma vez encontrados não me largavam e só se atiravam para cima de mim. A kilt estava ao rubro, talvez tenha sido a melhor tarde que tive por lá. Estavam todos os pequenos grandes benfiquistas mais o Bel e a mulher. Levei uma pen com musicas e liguei a coluna no máximo (parece abusivo, eu sei, mas aquela casa também é um bocadinho minha e sinto-me 100% à vontade e em familia ali). Entretanto, com musica ambiente, com danças de macarena pelo meio tivemos uma tarde super produtiva. Amanhã é o pagoda (depois explico) mas quando cheguei estavam a cozinhar imenso para isso. A mulher do Bel estava de volta do arroz, ia enrolando nas folhas enormes que a Tida ia apanhar às arvores e queimava antes para matar a bicharada. Depois tinham muitas coisas no forno (forno de cá, panelas com fogo por baixo) que o Bel ia controlando. Eles ofereceram-me algumas para ir provando, bem bom. Eu e os mais velhos tivemos a ajudar na cozinha mas rapidamente fomos pintar a parte de trás da casa, era o que faltava. Vou embora, mas já deixo a casa toda pintada. A sochea estava a cozinhar o jantar para eles comerem hoje. Os rapazes pequenos mas não assim tão pequenos, estavam de volta das casas de banho - ja têm as paredes todas feitas, já têm teto, só faltava limpar a porcaria acumulada com a obra para depois pintarem. Eles la estavam com mangueiras a tratar da limpeza. As mais pequenas estavam por todo o lado, a ajudar em pequenas coisas e a dançar. O ambiente estava mesmo optimo, todos bem dispostos, todos a ajudar e aquelas horas passaram num instante. Eu senti-me super bem, deixo a casa pintada, as casas de banho quase quase feitas e uma alegria enorme no ar. Disse que tinha estado a plantar e, da próxima que cá vier temos plantações para fazer ali, o que é optimo porque se aquilo for bem feito, mais o "hotel for chickens", vai haver sempre comida. Até lá nao sei bem como será mas como os meus pequenos hoje me disseram eu posso ir para Portugal à vontade que fico para sempre ali no coração deles. O Sopan também me veio perguntar porque é que eu tenho de ir embora. Sábado tenho um casamento, sexta tenho toda uma familia à minha espera com quem quero estar, na próxima semana muitos amigos mas tirando isso... o rapaz tem alguma razão, porque é que tenho mesmo que ir?



















No regresso a casa, já de noite, vindo da Kilt caiu uma trovoada enorme. Voltei com o Sovann, cada um na sua bicicleta, ele só me dizia "I think we can swim" e realmente podíamos. Trovoada, ali calção e t-shirt em cima da bicicleta a derrapar nas poças e na lama, poças fundas em que ao pedalar os pés ficavam completamente submersos naquela aguinha nojenta. "Such a freedom!!". Ao menos, as manchas de suor que tão visíveis estão nas fotos desapareceram logo (a roupa já está a secar para não pesar muito na mala amanhã).

Agora de regresso ao quarto vejo o quão morto estou, depois da estafa de ontem levo 2h na bicicleta, 2h a escavar, 2h a pintar e outras tantas de volta dos miúdos que não me dão um segundo de descanso. Estou morto mas feliz! Dou por mim a pensar que estou quase a ir embora mas caso ficasse não teria tempo nenhum morto, com 3 manhas no touch a life mais sábados, as outras manhãs na plantação e as tardes na kilt... Melhor, estaria sempre ocupado com coisas que realmente gosto e rodeado por pessoas de quem realmente gosto e que também não têm qualquer constrangimento em mostrar o quão querido lhes sou. Cá funciona assim!

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