Antes de mais, e porque me esqueci de referir, é só para lembrar que sou do Rio Ave desde pequenino...
Sim, a boa disposição está de volta. O fim do mercado é algo que me preocupa, mais do que preocupou a mudança de casa. Até aqui sempre pensei que um dia que fosse mesmo mesmo preciso vender, os miúdos iam conseguir. Agora quando for mesmo mesmo preciso, não sei. Sei que a solução ha-de aparecer e que uma coisa não vale a pena de certeza, deixar de aproveitar os últimos dias por cá por isso.
Hoje vou comparar um dia normal em Lisboa com um dia normal em Siem Reap, se é que isso existe por cá!
Lisboa:
Banho de agua quente para acordar, escolher o fato e gravata que estão todos aprumados no roupeiro. Vestir. Pôr o perfume e o relógio no pulso, quando não me esqueço. Tentar garantir que se tiver para chover, tenho o guarda-chuva comigo para manter a boa aparência. Levo comigo comida, sento-me no carro e conduzo até ao emprego, seja ele onde for. Às 9:00h da manhã, o para/arranca é a palavra de ordem.
Camboja:
Banho de agua de fria para acordar, escolher a roupa menos porca que tenho ou optar pela t-shirt comprada na véspera no mercado por 1 dólar. Vestir. Pôr o colar e a pulseira no pulso, dados pelos meus meninos, que nunca me esqueço. Tenho garantida a bendita chuva, que sempre refresca, lava a roupa e disfarça o suor. Levo comigo agua, sento-me na bicicleta e pedalo até ao touch a life. Às 8:00h da manhã, não parar é a palavra de ordem.
Lisboa:
Chego ao emprego e começo logo a querer cortar os pulsos. Quase choro com tanto que há para fazer. Estou ali de rato na mão no meio de folhas de excel, a rezar pela hora do café. Tenho um stress em cima doido, ainda que saiba que se por algum motivo me atrasar ninguém passa fome.
Atraso o almoço a ver se aquilo demora, tenho 15 análises em aberto à espera do Doutor José para as acabar.
Camboja:
Chego ao touch a life e começo logo a querer cortar vegetais. Choro com a cebola. Estou ali de faca na mão no meio dos vegetais, a rezar para que não chegue o ananás. Não tenho stress nenhum, ainda que se saiba que se aquilo por algum motivo atrasar fica uma centena de miúdos sem comer.
Apresso o almoço a ver se aquilo despacha, tenho 15 pequenos grandes benfiquistas à espera do teacher Zé para a classe.
Lisboa:
Regresso ao trabalho e a previsibilidade domina, tudo calado e sei que me espera uma tarde sentado em frente ao computador. Não faço a minima ideia a que horas saio. Olho para o relógio e penso, nunca mais são 18h.
Camboja:
Chego à kilt e a imprevisibilidade domina, tudo aos berros e sei que me pode esperar um pouco de tudo à tarde. Não faço a minima ideia a que horas saio. Olho para o relógio e penso, já são quase 18h.
Lisboa:
Seja a que horas for, regresso a casa com mais uns tostões, penso que dia de me***, só quero que o tempo passe depresse e cheguem as ferias. Janto por casa e, se ainda houver tempo, vou ao ginásio. Não escrevo nada e penso ainda bem porque não tenho nada interessante para contar. Sinto que foi um dia perdido, passado como se dum robot me tratasse
Camboja
Seja a que horas for, regresso a casa com mais uns desenhos dos pequenos grandes benfiquistas, penso que dia maravilhoso, só quero o tempo passe devagar e não acabem as ferias. Janto onde calha e não preciso de ginásio, o desporto diário está mais que feito. Escrevo para aqui umas postas de pescada e deito-me contente com o que fiz. Sinto que foi um dia útil, passado a ajudar boas causas.
Este texto todo porquê? Porque hoje fui jantar ao restaurante do Moh que abriu o negocio em Março. Estavam lá uns ingleses e ele apresentou-me. Às tantas disse isto, mas em inglês: "O Zé faz-me lembrar o meu melhor amigo, trabalhava 11 meses por ano e vinha 1 para o Camboja. Só que esse meu amigo depois pensou porque é que haveria de ser infeliz 11 meses (atenção que eu não sou infeliz, sou só muito mais feliz por cá) e feliz 1 mês se podia arriscar ser feliz todos os meses. Abriu um restaurante italiano por cá e incentivou-me a abrir este."
Os ingleses perguntaram o que é que isto tem de especial. O Moh deu a resposta certa: tem tudo. Os Cambojanos são um povo incrível, simpatico, que valoriza a ajuda que lhes chega, que nos recebe de braços abertos, que te vê na bicicleta e sem te conhecer te diz "hello" e se mete contigo. É um povo que impressiona pelas condições em que vive, mas impressiona muito mais pela alegria que transporta consigo. Faz bem à alma. O ambiente é incrível e todos os dias te cruzas com pessoas incríveis, doidos como eles lhes chamou, com historias de vida impressionantes, que abdicam de muita coisa para ser voluntários uma vez por aqui e que acabam sempre por voltar.
Estejam descansados meus familiares que não vou deixar nenhum avião por apanhar dos 3 que ainda faltam e daqui 1 semana estou de volta. Isto porque esqueci-me de referir um pormenor importante. Por cá, gasto em média, uns 20€ por dia com tudo, em Lisboa poupo-os. Aquela conversa deu que pensar, só isso.
E para acabar, o Moh disse aquilo tudo e não conhece ele esses tais pequenos grandes benfiquistas... Sim, porque as tardes na kilt são sempre o melhor que isto têm para me oferecer. Transformo-me ali e faço coisas que jamais faria em Portugal, volto a ser criança.
Hoje choveu à tarde mas não é por isso que deixo de sair para lá das 18h e que faltam ideias e animação. A futebolada deu lugar a desenhos, fita-cola na boca e nos olhos de alguns (a brincadeira não partiu de mim, foram as meninas mais velhas para calar o bebe - eu apenas gostei da ideia para o próximo que gritar sporting) e a uma guerra com armas. Hoje tinha 2 terroristas autênticos na aula pronto a matar o Teacher Zé. Nas aulas, como podem verificar, continuo a ensinar pouca coisa mas o fundamental, bons principios...
Hoje choveu à tarde mas não é por isso que deixo de sair para lá das 18h e que faltam ideias e animação. A futebolada deu lugar a desenhos, fita-cola na boca e nos olhos de alguns (a brincadeira não partiu de mim, foram as meninas mais velhas para calar o bebe - eu apenas gostei da ideia para o próximo que gritar sporting) e a uma guerra com armas. Hoje tinha 2 terroristas autênticos na aula pronto a matar o Teacher Zé. Nas aulas, como podem verificar, continuo a ensinar pouca coisa mas o fundamental, bons principios...
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