sábado, 17 de setembro de 2016

It touches my life

Sábado, dia de touch a life.

Sim, fui entregar a comida mais de um ano depois. Voltei ao sitio que tanto me marcou e mudou!
Não sei o que escrever. Mais de um ano depois, voltam a faltar palavras. É verdade que não foi a primeira vez, que já sabia para o que ia. É verdade que hoje não apareceu nenhum miudo com feridas de cortar a respiração e que hoje não vi nenhuma mãe a correr desesperadamente atrás do tuk-tuk a implorar ajuda para o filho - imagens que um ano depois tão bem tenho presentes na minha memória! Mas não é menos verdade que há coisas que não dá para habituar. Por mais vezes que o faça, é impossível ficar indiferente ao que ali se passa. 

Vamos por partes...

Acordei eram 6.30h, ainda a grande maioria de vocês não se tinha deitado. Cheguei e tinha a Mavis (a responsável pelo touch a life) de braços abertos para mim a lembrar-me o quão bom era ter-me de volta. E como é bom estar de volta!

Eu e os outros voluntarios metemos então as mãos na massa, neste caso nas facas, e vai de cortar vegetais. Cebolas, cenouras, tomates e muitos mais que nem sei o nome, para as omeletes e para a sopa. Hoje era o mais novo, estava de novo o japonês que é pouco mais velho que eu e depois a maioria já passava dos 40. Se a Mavis a tudo o que tem menos de trinta trata por "my children", a mim chama-me "my baby child". É verdade, sou um menino ali e um menino muito querido. Foram varias as vezes que a Mavis se abraçou a mim no dia de hoje a dizer que estava muito feliz por me ver ali de novo.

No meio dos vegetais, fartei-me de falar com um indiano e uma inglesa, já reformada. Ela falou-me do verão de 1969 que passou em Lisboa, teve piada. Depois contou-me que vai voltar a casar mas desta vez com a sua "girlfriend" (sim, não me enganei), dia 19 de Novembro, cá no Camboja. Agora está cá 60 dias a dar aulas, tal como eu. Diz que nesses 60 dias quer dar a volta ao mundo, isto é, escolhe um pais por dia e nesse dia toda a aula é dada em torno desse país. Identificam no mapa, aprendem as fronteiras, desenham a bandeira, vêm fotos dos monumentos importantes e aprendem os hábitos e costumes. Esta semana vai ensinar um tal de Portugal e portanto sim, andámos ali a falar do bacalhau, do vinho do Porto, do Fado, do Ronaldo e encheu-me de perguntas sobre o pais maravilhoso que temos. Com o Indiano, chegámos até ao Vasco da Gama!

Seguiu-se o arroz... ai os companheiros era um australiano, um japonês e 2 cambojanos. Tínhamos que fazer caber 400 gramas de arroz numa tigela que depois seria pesado (são 400 gramas para todos, não é a olho) e quando acertávamos exactamente nas 400... BINGO, gritava a malta. O calor não deu tréguas, aquilo já por si é exigente, só os homens fazem. Eu já estava de lenço na cabeça, em modo miss t-shirt molhada (não com agua mas com suor) e a sentir o suor a escorrer pelas pernas mas... é um prazer enorme fazer aquilo.


O ambiente lá é incrível, faz bem à alma sabem? Pessoas de todo o mundo, de todas a idades, umas dançam, outras cantam mas todas ajudam. Cada um dá o melhor de si e o resultado é impressionante.
Quase 700 refeições, isto é, 700 sopas, 700 omeletes e 280.000 gramas de arroz em meia dúzia de horas.
Depois é meter tudo num tuk-tuk e está pronto para ir entregar. Quando tudo termina estás satisfeito e realizado, parece que acabas de fazer infinita comida para ir distribuir pelos meninos Cambojanos.

O pior vem depois... depois tudo muda e aquilo que parecia ser infinito torna-se muito pouco. Aquilo que ofereces parece nada ao pé daquilo que eles precisam. E aquele esforço todo é uma gota de água num oceano.

Eu hoje fui à entrega. A Mavis não foi, o Moh e o Trevor estavam lá de manha mas não podiam ir à tarde e a Bonep hoje não estava portanto o trabalho que normalmente cabe à Mavis, hoje coube-me a mim. Ir de mota ao lado do tuk-tuk e organizar as entregas. Era o mais experiente, ou pelo menos, aquele em quem a Mavis confiou a tarefa.
O esquema daquilo é fácil, há familias e organizações que estão como que "registadas", ou seja, estão lá todos os sábados e pelo nome já sabemos quantas doses dar àquela pessoa. 1 pessoa vai buscar a comida para todas. Quando se embrulham as omeletes já é com base nestes números, ou seja, sacos com 12 omeletes para as familias de 12 e por ai fora. Esses têm a prioridade na entrega, são os primeiros a receber. A minha função era então ouvir o nome deles, identifica-lo no caderno da Mavis e dizer quantas doses eram para ser entregues. Depois as pessoas que estavam no tuk-tuk punham as coisas num saco e eu entregava a comida aos pequenos. Além dessas já programadas, são feitas centenas de doses individuais para os meninos que entretanto fazem fila atrás do tuk-tuk a implorar por comida.

No total são feitas 7 paragens sendo que todas elas são feitas não na rua da Kilt, mas muito perto em ruas paralelas ou perpendiculares. Alguns dos nomes eram iguais aos nomes de alguns dos meus pequenos grandes benfiquistas e cada vez que os ouvia sentia um arrepio na espinha. Afinal, podia muito bem ser um deles ali e... não sei, não quero os meus meninos naquela aflitiva realidade. Não quero ninguém, muito menos os pequenos grandes benfiquistas.

Tudo o que ali se passa é... não sei descrever, só presenciando.
Hoje voltei a sentir aquele arrepio na espinha, aquele nó na garganta, aquela angustia e frustração...
Não dá para estar preparado para o que se vê.
Saímos do touch a life, daquele ambiente incrível e bom. Vamos pela estrada alcatroada, com casas de lado a lado. Em seguida entras na estrada de terra batida, começas a ir para o meio da selva. As casas desaparecem, são transformadas em barracões de metal. Depois, esses barracões desaparecem para dar lugar a troncos de arvore cobertos com plásticos e por vezes a casa não é mais que cartão no chão ou uma rede entre 2 troncos.
Depois vais parando. Logo na primeira paragem tens um senhor que ainda me lembrava muito bem dele. Está em casa, em cima duma cama e não tem as 2 pernas, ou seja, nunca sai dali. A alegria que tem é receber a nossa visita 1 vez por semana, a refeição boa que faz é quando tem a nossa visita 1 vez por semana. Se o facto de não ter pernas já arrepia, tudo o resto impressiona muito mesmo. Um corpo esquelético onde identificas costelas facilmente, pulsos da largura do meu polegar, careca e sem dentes.
Corpos assim apanhas muitos ao longo das 7 paragens. Uma das senhoras a quem ouvi o nome e entreguei a comida era uma senhora que tinha que usar uma bengala (que era tipo um tronco de arvore) para se conseguir por de pé tal a fraqueza daquele corpo. E tu estás ali, tu tens que ouvir o nome, dar a comida e retribuir um sorriso. 
Das 700 refeições que entregas, mais de 90% são a crianças. Crianças em tronco nu, crianças só com um t-shirt vestida, crianças doentes, de roupa rasgada, de pele enrugada, de cabelo empapado em que nem uma festinha consegues fazer.
E tu estás ali a tentar chegar a todos. Às tantas, deixas de conseguir sorrir em alguns momentos, sentes lagrimas no canto do olho e estás ali numa emoção sem igual, a ver, a presenciar, a viver a pobreza. Tens os olhos postos directamente naquilo que raramente passa na TV e te incomoda tanto que acabas por ignorar ou esquecer que aquilo existe. O mal é que ali não tens um comando e não consegues mudar de canal, ali vives, sentes, tocas.
E eu estava ali, na primeira fila a ouvir o nome deles, a dar-lhes a comida na mão com todo o cuidado para não se queimarem com a sopa. De cócoras, a fazer-lhes festinhas, a sorrir para eles e a olhá-los nos olhos como que a dizer "vai correr tudo bem". Mas será que vai? Não tem como correr bem.
E depois chega a pior parte, chegas à ultima paragem, entregas as refeições àqueles que estão "registados" e contas as doses individuais que te sobram. Hoje eram 40. Olhas para a fila e não tens 40 miúdos, tens muitos mais... E aí percebes que tens miúdos que te vão pedir comida e tu não vais ter mais para lhes dar para além duns rebuçados. Aí percebes que não consegues chegar a todos, que vais deixar barrigas vazias sem conseguir fazer nada e... sentes-te fraco, impotente, vencido. Vencido não sei por quem porque não sei contra quem combatemos, mas vencidos! Ai és invadido por uma frustração e angustia sem igual...



Mas sabem o mais irónico nisto tudo? É que posso estar de lágrima no olho, meio que desamparado e sozinho, sem sequer conseguir sorrir no regresso a casa mas, em certo modo, estou satisfeito! Hoje fui útil, senti-me útil, dei o que tinha, ajudei como podia... Sinto que fui mais produtivo hoje em 3 horas do que em Portugal num ano de trabalho. Não tenho duvidas que o fui.
Trabalho com pessoas, quase diariamente, que vivem para o trabalho, como se não houvesse nada mais importante neste mundo que os números que auditamos, números que não passam disso mesmo, números. Pessoas cuja alegria é descubrir falcatruas de aldabrões que tem tudo e querem ainda mais. Mas que alegria é esse ao pé da alegria que deve ser entregar um bocado de arroz a uma criança com fome?

Já sei a lengalenga toda. A minha vida é em Portugal, já sei que são realidades diferentes, já sei que são culturas diferentes e já sei que não posso comparar o incomparável. Mas o que é isso do incomparável? Em que é que um miúdo destes à nascença é diferente de mim quando eu nasci para não poder comparar? E o que é isso dos mundos diferentes que eu não percebo? Acham mesmo que é preciso virmos para mais de 10.000 kms de distancia das nossas casas para nos depararmos com isto? Simplesmente uns tem mais sorte que outros. Mas deixem-me que vos diga, a todos os sortudos que, como eu, nasceram no berço certo. Uma coisa é certa: são ainda mais sortudos aqueles que como eu, tiverem a oportunidade de um dia poder viver o que eu hoje vivi!

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