Sim, fui entregar a comida mais de um ano depois. Voltei ao sitio que tanto me marcou e mudou!
Não sei o que escrever. Mais de um ano depois, voltam a faltar palavras. É verdade que não foi a primeira vez, que já sabia para o que ia. É verdade que hoje não apareceu nenhum miudo com feridas de cortar a respiração e que hoje não vi nenhuma mãe a correr desesperadamente atrás do tuk-tuk a implorar ajuda para o filho - imagens que um ano depois tão bem tenho presentes na minha memória! Mas não é menos verdade que há coisas que não dá para habituar. Por mais vezes que o faça, é impossível ficar indiferente ao que ali se passa.
Vamos por partes...
Acordei eram 6.30h, ainda a grande maioria de vocês não se tinha deitado. Cheguei e tinha a Mavis (a responsável pelo touch a life) de braços abertos para mim a lembrar-me o quão bom era ter-me de volta. E como é bom estar de volta!
Eu e os outros voluntarios metemos então as mãos na massa, neste caso nas facas, e vai de cortar vegetais. Cebolas, cenouras, tomates e muitos mais que nem sei o nome, para as omeletes e para a sopa. Hoje era o mais novo, estava de novo o japonês que é pouco mais velho que eu e depois a maioria já passava dos 40. Se a Mavis a tudo o que tem menos de trinta trata por "my children", a mim chama-me "my baby child". É verdade, sou um menino ali e um menino muito querido. Foram varias as vezes que a Mavis se abraçou a mim no dia de hoje a dizer que estava muito feliz por me ver ali de novo.
No meio dos vegetais, fartei-me de falar com um indiano e uma inglesa, já reformada. Ela falou-me do verão de 1969 que passou em Lisboa, teve piada. Depois contou-me que vai voltar a casar mas desta vez com a sua "girlfriend" (sim, não me enganei), dia 19 de Novembro, cá no Camboja. Agora está cá 60 dias a dar aulas, tal como eu. Diz que nesses 60 dias quer dar a volta ao mundo, isto é, escolhe um pais por dia e nesse dia toda a aula é dada em torno desse país. Identificam no mapa, aprendem as fronteiras, desenham a bandeira, vêm fotos dos monumentos importantes e aprendem os hábitos e costumes. Esta semana vai ensinar um tal de Portugal e portanto sim, andámos ali a falar do bacalhau, do vinho do Porto, do Fado, do Ronaldo e encheu-me de perguntas sobre o pais maravilhoso que temos. Com o Indiano, chegámos até ao Vasco da Gama!
Seguiu-se o arroz... ai os companheiros era um australiano, um japonês e 2 cambojanos. Tínhamos que fazer caber 400 gramas de arroz numa tigela que depois seria pesado (são 400 gramas para todos, não é a olho) e quando acertávamos exactamente nas 400... BINGO, gritava a malta. O calor não deu tréguas, aquilo já por si é exigente, só os homens fazem. Eu já estava de lenço na cabeça, em modo miss t-shirt molhada (não com agua mas com suor) e a sentir o suor a escorrer pelas pernas mas... é um prazer enorme fazer aquilo.
O ambiente lá é incrível, faz bem à alma sabem? Pessoas de todo o mundo, de todas a idades, umas dançam, outras cantam mas todas ajudam. Cada um dá o melhor de si e o resultado é impressionante.
Quase 700 refeições, isto é, 700 sopas, 700 omeletes e 280.000 gramas de arroz em meia dúzia de horas.
Depois é meter tudo num tuk-tuk e está pronto para ir entregar. Quando tudo termina estás satisfeito e realizado, parece que acabas de fazer infinita comida para ir distribuir pelos meninos Cambojanos.
O pior vem depois... depois tudo muda e aquilo que parecia ser infinito torna-se muito pouco. Aquilo que ofereces parece nada ao pé daquilo que eles precisam. E aquele esforço todo é uma gota de água num oceano.
Eu hoje fui à entrega. A Mavis não foi, o Moh e o Trevor estavam lá de manha mas não podiam ir à tarde e a Bonep hoje não estava portanto o trabalho que normalmente cabe à Mavis, hoje coube-me a mim. Ir de mota ao lado do tuk-tuk e organizar as entregas. Era o mais experiente, ou pelo menos, aquele em quem a Mavis confiou a tarefa.
O esquema daquilo é fácil, há familias e organizações que estão como que "registadas", ou seja, estão lá todos os sábados e pelo nome já sabemos quantas doses dar àquela pessoa. 1 pessoa vai buscar a comida para todas. Quando se embrulham as omeletes já é com base nestes números, ou seja, sacos com 12 omeletes para as familias de 12 e por ai fora. Esses têm a prioridade na entrega, são os primeiros a receber. A minha função era então ouvir o nome deles, identifica-lo no caderno da Mavis e dizer quantas doses eram para ser entregues. Depois as pessoas que estavam no tuk-tuk punham as coisas num saco e eu entregava a comida aos pequenos. Além dessas já programadas, são feitas centenas de doses individuais para os meninos que entretanto fazem fila atrás do tuk-tuk a implorar por comida.
Tudo o que ali se passa é... não sei descrever, só presenciando.
Hoje voltei a sentir aquele arrepio na espinha, aquele nó na garganta, aquela angustia e frustração...
Não dá para estar preparado para o que se vê.
Saímos do touch a life, daquele ambiente incrível e bom. Vamos pela estrada alcatroada, com casas de lado a lado. Em seguida entras na estrada de terra batida, começas a ir para o meio da selva. As casas desaparecem, são transformadas em barracões de metal. Depois, esses barracões desaparecem para dar lugar a troncos de arvore cobertos com plásticos e por vezes a casa não é mais que cartão no chão ou uma rede entre 2 troncos.
Depois vais parando. Logo na primeira paragem tens um senhor que ainda me lembrava muito bem dele. Está em casa, em cima duma cama e não tem as 2 pernas, ou seja, nunca sai dali. A alegria que tem é receber a nossa visita 1 vez por semana, a refeição boa que faz é quando tem a nossa visita 1 vez por semana. Se o facto de não ter pernas já arrepia, tudo o resto impressiona muito mesmo. Um corpo esquelético onde identificas costelas facilmente, pulsos da largura do meu polegar, careca e sem dentes.
Corpos assim apanhas muitos ao longo das 7 paragens. Uma das senhoras a quem ouvi o nome e entreguei a comida era uma senhora que tinha que usar uma bengala (que era tipo um tronco de arvore) para se conseguir por de pé tal a fraqueza daquele corpo. E tu estás ali, tu tens que ouvir o nome, dar a comida e retribuir um sorriso.
Das 700 refeições que entregas, mais de 90% são a crianças. Crianças em tronco nu, crianças só com um t-shirt vestida, crianças doentes, de roupa rasgada, de pele enrugada, de cabelo empapado em que nem uma festinha consegues fazer.
E tu estás ali a tentar chegar a todos. Às tantas, deixas de conseguir sorrir em alguns momentos, sentes lagrimas no canto do olho e estás ali numa emoção sem igual, a ver, a presenciar, a viver a pobreza. Tens os olhos postos directamente naquilo que raramente passa na TV e te incomoda tanto que acabas por ignorar ou esquecer que aquilo existe. O mal é que ali não tens um comando e não consegues mudar de canal, ali vives, sentes, tocas.
E eu estava ali, na primeira fila a ouvir o nome deles, a dar-lhes a comida na mão com todo o cuidado para não se queimarem com a sopa. De cócoras, a fazer-lhes festinhas, a sorrir para eles e a olhá-los nos olhos como que a dizer "vai correr tudo bem". Mas será que vai? Não tem como correr bem.
E depois chega a pior parte, chegas à ultima paragem, entregas as refeições àqueles que estão "registados" e contas as doses individuais que te sobram. Hoje eram 40. Olhas para a fila e não tens 40 miúdos, tens muitos mais... E aí percebes que tens miúdos que te vão pedir comida e tu não vais ter mais para lhes dar para além duns rebuçados. Aí percebes que não consegues chegar a todos, que vais deixar barrigas vazias sem conseguir fazer nada e... sentes-te fraco, impotente, vencido. Vencido não sei por quem porque não sei contra quem combatemos, mas vencidos! Ai és invadido por uma frustração e angustia sem igual...
Mas sabem o mais irónico nisto tudo? É que posso estar de lágrima no olho, meio que desamparado e sozinho, sem sequer conseguir sorrir no regresso a casa mas, em certo modo, estou satisfeito! Hoje fui útil, senti-me útil, dei o que tinha, ajudei como podia... Sinto que fui mais produtivo hoje em 3 horas do que em Portugal num ano de trabalho. Não tenho duvidas que o fui.
Trabalho com pessoas, quase diariamente, que vivem para o trabalho, como se não houvesse nada mais importante neste mundo que os números que auditamos, números que não passam disso mesmo, números. Pessoas cuja alegria é descubrir falcatruas de aldabrões que tem tudo e querem ainda mais. Mas que alegria é esse ao pé da alegria que deve ser entregar um bocado de arroz a uma criança com fome?
Já sei a lengalenga toda. A minha vida é em Portugal, já sei que são realidades diferentes, já sei que são culturas diferentes e já sei que não posso comparar o incomparável. Mas o que é isso do incomparável? Em que é que um miúdo destes à nascença é diferente de mim quando eu nasci para não poder comparar? E o que é isso dos mundos diferentes que eu não percebo? Acham mesmo que é preciso virmos para mais de 10.000 kms de distancia das nossas casas para nos depararmos com isto? Simplesmente uns tem mais sorte que outros. Mas deixem-me que vos diga, a todos os sortudos que, como eu, nasceram no berço certo. Uma coisa é certa: são ainda mais sortudos aqueles que como eu, tiverem a oportunidade de um dia poder viver o que eu hoje vivi!
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