Chegou o dia que eu não queria de todo que chegasse, o último no Camboja. Último... desta vez. No que depender de mim, jamais será o último.
Foi um dia de emoções fortes, de muito gargalhada, algumas lágrimas, muitos abraços, muitas palavras bonitas de dizer e lindas de escutar... Foi o dia! E se duvidas existiam, não as tenho. Isto é a minha praia, estas pessoas são como familia para mim, sinto-me mais em casa no touch a life e na kilt que na casa onde moro em Lisboa (a minha avó bem que diz e repete: "a casa não é tua não que eu não ta dou") mas estas duas casas são um bocadinho minhas e eu... eu sou muito feliz aqui. Aliás, a familia kilt e a familia touch a life fazem-me muito feliz...
Estas pessoas que me rodeiam por cá são as minhas pessoas, os meus pequenos grandes benfiquistas são aqueles miúdos que não são do meu sangue, nem tão pouco são parecidos comigo, mas são aqueles por quem me sinto responsável, por quem caso algo errado aconteça me sentirei culpado e aqueles a quem desejo o melhor que há na vida, não só porque eles merecem mas porque eles o fizeram comigo. Deram-me o melhor que há vida, deixaram-me entrar nas suas vidas e deixaram-me ficar, ensinando-me a olhar para tudo de outra perspectiva.
Eu sou o teacher mas eles é que me dão lições. Lições de união, partilha, fraternidade, humildade, bondade... Eles são mestres das pequenas coisas e eu, eu aprendo todos os dias com eles! E não, não aprendo só a cozinhar, pintar, contruir casas, dar pinos e mortais ou as mais imagináveis habilidades que eles me ensinam, não aprendo só Khmer, aprendo a olhar a vida doutra forma, a encarar a realidade cruel com alegria e enfrentar as dificuldades de sorriso na cara! Com eles e por cá, sou outra pessoa, e uma pessoa bem melhor que transborda de alegria por onde passa...
Eu quando sossegar mais a cabeça escrevo melhor e faço outro epilogo à semelhança do ano passado. Por agora vou apenas falar do ultimo dia no Camboja que também não foi pequeno.
As lágrimas apareceram logo às 8h da manhã. Tinha dito à Mavis que não queria chorar no último dia naquela casa mas assim foi. Cheguei, cortei uma cebola e já estava. No meio daquilo, dei por mim e já eram 9h, hora a que tinha combinado estar na kilt. Disse à Mavis, ela mandou-me voltar mais tarde e sai disparado na bicicleta.
Cheguei à Kilt atrasado mas não foi grave, nunca é. Estavam todos no mesmo ambiente que na véspera, a preparar os últimos cozinhados para ir ao Pagoda. Sim, eu abdiquei do touch a life porque tive a grande honra de ir ao Pagoda com eles. Passo a explicar...
Este mês é um mês especial no Camboja e ontem era o pchum ben day, seja lá o que isso for. Naquela casa onde se come arroz com arroz quase sempre a todas as refeições, estavam a fazer um autentico manjar dos Deuses. Carne, o Khmer curry, arroz, bananas, sei lá.. tudo muito bem preparado, bem embalado dentro de folhas das árvores, com todo um design e feito com todo o cuidado. Eu ajudei naquilo que sabia, sendo que até a virar o arroz para dentro dumas caixas fui corrigido porque não podia de todo espalmar o arroz. Isto ali, na Kilt, portanto imaginem os cuidados e preciosismos com que estavam.
Uma vez acabado o cozinhanço, fomos então para o pagoda. A ideia inicial era irem mesmo para o Angkor Wat, aquela maravilha do mundo cheia de monges mas eu aí teria que pagar a entrada que não é barata (para os cambojanos é de borla) pelo que mudámos o plano e fomos a um templo ali ao pé. Não fomos todos, eles levam aquilo mesmo a sério, não é para brincadeiras portanto só foi o Bel e a mulher, eu e os 4 rapazes mais velhos. Nunca nenhum voluntário tinha ido àquilo com eles, foi um orgulho. Dai também ter deixado o touch a life para 2ºplano.
A situação lá foi hilariante. Chegámos e, pela primeira vez na vida, vi os meus grandes benfiquistas 100% sérios e compenetrados. Entregámos toda a comida a um monge que lá estava, sentamos no chão em frente dele sendo que ele estava num estrado, ou seja, no piso superior. Depois foi um filme de comédia onde eu era protagonista. Também era o único não cambojano ali. Eles começaram num movimento de corpo estranho, tipo de joelhos, as duas mãos esticadas e unidas em frente da cara e depois vá de vénias, balançavam para a frente e para trás, batiam com as mãos no chão e eu ali no meio, completamente perdido. Queria acompanhar e não estava de todo a gozar com a situação, simplesmente não fazia ideia de como o fazer. A seguir pararam, mantiveram-se dobrados e com as mão unidas em frente à cara. O monge começou aos berros a dizer uma lenga lenga enorme, o Sovann ainda me disse ao ouvido que se eu quisesse podia tirar uma fotografia. Era a fotografia, a mais épica duma vida provavelmente, mas não tive coragem. Não estava para gozar e mesmo sem foto, vivi o momento épico. Mantive-me dobrado perante o monge careca, já velho, todo laranja que volta e meia mandava água para cima de nós. Enquanto ele falava e ainda que a minha religião seja outra, "rezei" pelo futuro da Kilt e dos meus pequenos grandes benfiquistas. Quando ele se calou, eles repetiram o balançar do corpo, as batidas no chão e eu a mesma figura estupida ao tentar imitar e a trocar-me todo. Depois fomos embora mas foi, sem duvida, um encerrar em beleza estes tempos no Camboja. Não vou comentar nem refletir sobre o facto de aquelas pessoas, que muitas vezes não têm o que comer, terem entregue montes de comida (foi 1 dia a cozinhar), e da melhor comida, aos monges. É como aquelas caixas cheias de dinheiro que se veem nos templos budistas entregues por cambojanos que não têm dinheiro de todo. É uma questão de crenças e fé, é de que respeitar, até porque a Igreja Católica também tem muitas coisas que, pelo menos aos meus olhos, são um autêntico disparate. Atenção que eu sou bem católico mas é verdade.
Regressados à Kilt, eles fartaram-se de gozar comigo e lá me ensinaram a fazer a reza... agora já sei! Eu também lhes ensinei o sinal da cruz. Depois disse que ia embora mas o Bel pediu para almoçar primeiro com eles. Assim foi, era um dia especial, montaram a mesa (a da sala de aula novamente) e comemos todos à mesa o Khmer Curry que tinham feito com arroz. Já passava das 12h e sai disparado para o touch a life, queria despedir-me das pessoas e aquilo acaba sempre por volta das 13h.
Cheguei, já só la estavam meia-dúzia de miúdos, já todos tinham comido, mas os voluntários estavam lá quase todos. A Mavis mandou-me logo ir comer, eu rejeitei. Ela disse que eu jamais podia negar o último almoço naquela casa e eu... almocei 2 vezes. Sim, tanta vez que passo fome aqui e no ultimo dia o almoço foi em dose dupla, ambos em familia e no meio dum ambiente fantástico. Depois, chegou a hora de deixar aquela casa. Os voluntários foram saindo, vá de abraços e muitas, muitas palavras bonitas ao meu ouvido. Os últimos foram o Keike, o japonês que tem quase a minha idade, e a Mavis. Tirámos uma foto os 3, depois o Keike deu-me um abraço de meia-hora que a Mavis não resistiu em tirar fotos e só dizia: "My little children" e depois dei um enorme obrigado e um enorme abraço à Mavis, que retribuiu ambas as coisas. Disse um "I love you" e disse que sabia que eu ia voltar. Eu não me desfiz, nem tão pouco sai de lá triste ou melancólico. Muito pelo contrario, sai contente, com a sensação de missão cumprida e com a certeza de que vou voltar.




Às 14h estava na Kilt de novo, ou seja, mais meia-hora a pedalar. Tinha lá os pequenos grandes benfiquistas todos, com excepção do Sovann que já não lá mora. Os que tinham aulas faltaram, queriam despedir-se de mim e estar a ultima tarde comigo.
Ora bem, a tarde começou com uma especie de entrevista minha àquele que provavelmente será o próximo professor de ingles deles. Uma coisa a sério que será paga em Portugal... Depois se se confirmar logo explico melhor. Entretanto quando o professor estava a ir embora a Sokim teve outro ataque de epilepsia, caiu no chão e teve ali um bom bocado a ter convulsões... Fez muita impressão mesmo, coitadinha. Mas depois passou logo, acordou logo levantou-se e foi descansar. Já os restantes, não descansaram nem deram descanso. Foi tudo sentar-se na sala de aula, eu como é obvio disse que aquela aula era a ultima portanto eles é que escolhiam o que fazer. Jogámos futebol ainda um bom bocado. Acabou quando eu já não suportava mais o suor, eu soprava e parecia que chovia com as pingas que me caiam do bigode. Depois começaram a mostrar as suas habilidades, andar a fazer o pino, pontes, mortais para a frente, mortais para trás, o que se lembravam. Depois começaram a por-se de pé aos ombros uns dos outros. Eu nessa também entrei, mas sempre como base. Mesmo assim, ainda vi jeitos de ter que ir com o Las para o hospital com a queda que ele ia dando ao cair dos meus ombros. Às tantas, já as meninas também andavam naquilo e já íamos com o Lay de pé nos ombros do Sarath que estava de pé aos ombros do Chamerong. A Sokim voltou entretanto e estávamos todos naquilo, numa alegria enorme. Depois passamos para o saltar ao eixo, os rapazes todos em fila, saltavam nas costas de todos e baixam-se para servir de base a quem vinha atrás. Vejam o video porque só visto. A seguir e porque o bebe andava a correr lá no meio e estava a correr o risco de levar com um miúdo em cima, o Sarath pegou nele e começou às voltas, tantas que o miúdo ficou tonto. A brincadeira foi em ti dar voltas ao bebé e vê-lo depois a tentar levantar-se, a andar todo torto e a cair (isto cá era duma mãe me dar um tiro, eu sei). Depois foram buscar a bola de futebol e fizeram uma baliza sem guarda-redes. O objetivo era então marcar golo, num penalty e numa baliza a uns 3 metros da bola mas... depois de rodar 10 vezes (depois passaram para 5 sobre a bola). Eu esta tentei, fui logo dos primeiros. À 3ª volta já via tudo a andar à roda, parei tipo na 7ª, fui para rematar com o pé direito e acertei na bola com o esquerdo, tombei para o lado e estatelei-me no meio da terra que eles têm para lá que ajuda a fazer o cimento. Dai em diante, todo eu cheirava literalmente a me***. Acho que todos entraram na brincadeira, uns caiam para trás, outros falhavam a bola, outros nem se levantavam. So houve um golo, do Lay, ao fim de algumas tentativas e todos, todos sem excepção, rimos que nem uns perdidos. Depois chegou a hora... aproveitei um momento de pausa e disse aos meus meninos que tinha que ir embora.















Os momentos seguintes não têm descrição possível. Estraguei toda a alegria e boa-disposição, todo aquele ambiente. Eles calaram-se, muitos foram-se sentar e ficaram pensativos, ninguém falava e eu ali sem saber bem o que fazer e dizer. Propus que tirássemos uma ultima foto e assim foi. Dei "mais 5" a todos, festinhas aqui e ali mas sem grandes abraços nem nada que não queria choros da parte de ninguém. Disse aos mais velhos para me dizerem assim que precisarem de alguma coisa, bem como à mulher do Bel. Eles perguntaram quando voltava e disseram que estavam ali portanto voltávamos a vermo-nos quando eu voltasse lá. Eu prometi voltar, montei-me em cima da bicicleta e eles levantaram-se todos e, como que por instinto, fizeram como que 2 corredores (tipo os franceses aos portugueses quando fomos levantar a taça) para eu passar pelo meio. Eu que quando saio da kilt ou tenho miúdos a empurrar a bicicleta para ajudar a arrancar e ver se caiu ou tenho as pequenas a puxar a bicicleta para eu não conseguir ir embora, ali tinha-os a todos a ver-me passar com um ar serio e triste. Passei por eles, passei o portão e eles foram todos para a estrada ver-me a desaparecer. Eu... eu nem tive coragem de olhar para trás, acenei já lá muito ao fundo para garantir que nenhum via as lagrimas que tinha na cara. Nunca os tinha visto assim e nunca na minha vida tinha sentido um nó na garganta tão grande. Depois do que foi no ano passado e da despedida no touch a life, achava mesmo que não ia chorar e que ia ser tranquilo, que já tinha defesas para aquilo mas não. Não tenho de todo e fiquei completamente frustado. Devo ter demorado uma hora a voltar ao quarto, a dar murros no volante da bicicleta e frustado porque tudo isto passou a correr e todo o tempo que passo longe deles parece uma eternidade.
Eles... não sei como ficaram depois, o Sovann hoje disse-me que achava que alguns tinham chorado ao ver-me ir embora de novo. E eu... eu relato apenas o que vi e o que aconteceu, o que sentimos fica apenas entre mim e eles porque mesmo que tentasse passar para o "papel" ninguém iria compreender.
Após isso fui para o quarto arrumar as coisas. Fui jantar ao centro, despedir-me dos pratos cambojanos, e andar... andar por ali, mas repito, não estava triste e a aflição que foi deixar os miúdos passou após um belo banho. Estava a vaguear, só a pensar na maravilha que é tudo aquilo e no que aquela cidade representa para mim. Não sei o que vem daqui a para a frente, mas as histórias, as vivências que ali tive, as pessoas que conheci, as memórias que levo comigo ninguém me tira.
Hoje faltava-me uma despedida. O Sovann não estava ontem na kilt então combinámos encontrarmo-nos as 6:30h da manhã, hora a que ele saia do emprego e assim foi. Despedi-me dele, prometi voltar só não sabia ainda quando. Prometi também que se ele casar entretanto eu estaria presente de certeza, e estarei haja o que houver. Aliás, prometi pagar parte da festa e não sei quem casa primeiro, se a minha irmã de sangue, se o meu irmão cambojano mas desde que não seja no mesmo dia, tudo optimo. Agarrem-me em ambas as festas que eu devo perder os travões!
Por fim, apanhei o tuk-tuk, o dono da guest house também se veio despedir de mim, dar-me um abraço e quis tirar uma foto e aeroporto com ele. Lembro-me do ano passado estar ali, no mesmo sitio que estava hoje, a ver fotos, a falar com a Mavis e ver um video que um pequeno grande benfiquista me enviou. Lembro-me de ter chorado muito mas hoje não, vi algumas fotos, dormi muito tempo enquanto esperava pelo avião e estava super calmo e muito muito tranquilo. Sei que volto quando eu quiser e sei que quando voltar, vai estar tudo igual.