Bom... chegou a hora de encerrar mais um blog e despedir-me. Despedir-me por agora, até ao "Zé Khmer não há duas sem três" ou algo do género. Na verdade, a aventura de atravessar meio mundo e viver os dias mais incríveis que se podem viver é para continuar portanto, se este for o último post é só porque duma próxima não me vai apetecer escrever sobre as aventuras que vou vivendo em terras Cambojanas.
O balanço do mês não podia ser mais positivo. Com exceção do recibo de vencimento de Setembro que tem um 0 bem redondo, todo o mês foi de fazer inveja a muita gente. 1 mês sozinho, do outro lado do Mundo. 7 viagens de avião, muitas horas no ar, em barcos, carros, tuk-tuks, motas, bicicletas. Muitos carimbos no passaporte, muitas pessoas novas, muitas culturas, muitas historias para contar, muitos momentos hilariantes. Conheci pessoas de todo o mundo, sul africanos e malaicos, australianos e zimbabuanos (é assim que se diz?), americanos e europeus... Conheci um pouco de todo o mundo, conheci um pouco mais de mim a testar limites e a desafiar-me a fazer coisas 100% novas e, de certa forma, através do blog e das reações de alguns, também conheci um bocadinho mais as pessoas que me rodeiam em Portugal.
O mês passou depressa, num abrir e fechar de olhos. Já estou de fato e gravata de novo, diariamente, em frente a um computador, a ser comido vivo por pessoas em stress. Também é certo que se ainda o faço é porque no Camboja arranjo a motivação para o fazer. Há um ano atrás, após uns dias a trabalhar 12 horas por dia, a minha grande amiga Teresa "mandou-me" andar com fotos dos meus pequenos grandes benfiquistas na carteira e olhar para elas sempre que tivesse a desesperar no trabalho. Aquilo funciona. Primeiro porque o stress desaparece quando os vejo, lembro-me que aquilo que faço não serve para nada, e por outro lado, vejo aquilo que faço como um meio para atingir um fim: regressar ao Camboja e safar qualquer imprevisto que surja por lá como alimentar as barrigas de 15 pequenos grandes benfiquistas.
Não vou falar mais de trabalho, vamos fechar o blog em beleza.
Por um lado, o mês passou depressa. Por outro lado, se olhar para as historias que presenciei, para todos os sitios onde caminhei, tudo o que visitei, os amigos que fiz e as experiencias que vivi parece que o mês foi enorme. E foi. Sem duvida que num mês assim se aprende, se cresce, se muda perspectivas, se assetam ideias como em anos de vida na rotina portuguesa.
No meio da diversão de Macau, dos chineses de Hong Kong, do passar de estradas de Hanoi, da paisagem de Halong Bay e dos templos de Bangkok, levo comigo, essencialmente, as vivências do Camboja! Por todas as razões e mais algumas, pelo que aquele pais me diz, pelas pessoas que conheci, pela experiência do touch a life, pelos pequenos grandes benfiquistas. Ali não tenho só a experiencia do turista, tenho tudo o resto que tanto me marca. Ali, este ano, semeei árvores mas já lá tinha muitas raízes. Aquilo é a minha praia, não há duvidas.
Não digo que foi a aventura da minha vida porque já tinha ido no ano passado (e também já me atirei dum avião), não digo que foi o melhor mês da minha vida porque já lá tinha passado 2 no ano passado. Também não posso dizer que tenha feito tudo igual de novo porque não fiz, simplesmente continuei aquilo que já tinha iniciado. Foi óptimo. Este ano foi menos tempo, mas ainda assim não consigo deixar de estar contente e orgulhoso. Lá tenho um eu que não conheço por cá. Lá vivo um conceito de liberdade que é impossível por cá. Acordo um dia para ser pintor, como no dia seguinte posso acordar para ser cozinheiro. Aliás, no mesmo dia sou cozinheiro, professor, pintor, construtor, agricultor, médico, palhaço... sou o que for preciso, sou o que me apetecer, sou feliz. Lá conheço-me, descubro talentos que por cá não tenho ou se os tento encontrar levo logo na cabeça. Este ano até cantor fui e não, nem aí fui criticado. Lá, acima de qualquer coisa, sou feliz.
Este ano foi o continuar de tudo. Mudei mais um bocadinho, porque mudar é conhecer e conheci mais um bocadinho. Deparei-me com a pobreza mais uma vez, vivi momentos difíceis em locais onde há fome, há doença, há miséria. Mas cresci, superei-me e tornei-me mais humilde de novo, mudei perspectivas de novo, adaptei expectativas de novo, questionei prioridades de novo. Encontrei muitas respostas às muitas perguntas com que me deparei durante o ano, ganhei certezas às desconfianças que já tinha. E este ano consegui, consegui desligar-me um bocadinho das palavras fome, doença e miséria para viver também naqueles momentos a alegria da partilha, da entreajuda e da solidariedade. Vivi alegremente na adversidade, como eles me ensinaram...
Já sabia que não ia mudar o mundo, que o pobre ia continuar pobre, que o doente continuaria doente e que o esfomeado continuaria com fome após a minha passagem. Mas também já sabia que eu não continuaria o mesmo. Sabia que lá chegava e não corrigia desigualdades, não melhorava vidas, não alterava tremendas injustiças. Mas também sabia que as coisas mais simples, os gestos mais insignificantes são coisas que por cá não valem nada mas lá fazem diferença. E fiz essa diferença, fiz uma e outra, e outra vez. Só por isso, valeu tanto a pena. Fi-lo sempre que peguei uma criança do touch a life ao colo, sempre que procurei aquele pequeno mais isolado para lhe fazer uma festinha, sempre que lhes dei um saco de sopa e arroz, sempre que os tratei como pessoas e não como coitadinhos, sempre que não tive nojo deles e os abracei, sempre que os mandei lavar os dentes ou tomar banho, sempre que os ajudei com a casa nova, sempre que lhes dei roupas novas (ainda que velhas), sempre que festejei aniversários nunca antes festejados, sempre que perguntei pelos cadernos da escola, sempre que mostrei aos meus pequenos grandes benfiquistas o quanto gostava deles, sempre que os fiz sentirem-se especiais, sempre que tive com eles. E assim fiz a diferença sem ter mudado nada. E ainda bem, porque o essencial não é pertinente de mudança. Miudos lutadores, que valorizam tudo o que a vida lhes dá e respondem com alegria ao que a vida não lhes deu.
No touch a life, convivi com pessoas que vivem com o único propósito de ajudar o próximo e vivi essa alegria com eles. Fui um voluntário, mas tenho a certeza que não fui só mais um. Passei momentos incríveis, muitas horas naquela casa e senti-me em casa. Senti-me um puto, mas um puto muito querido. Senti-me um sortudo por ali estar rodeado de tanta pessoa fantástica. Senti-me muito bem...
Na kilt não me senti em casa, sinto que sou da casa. Eles não são 15, nós somos 16. Na kilt fui o teacher, mas deixei que aqueles mestres me ensinassem e fartei-me de aprender. Este ano podemos não ter ido ao circo, não ter ido nadar na praia, não ter ido jogar futebol no relvado mas não foi por isso que deixámos de ser felizes. Fomos saltar que nem uns malucos, festejámos aniversários, pintámos uma casa, contruímos paredes, dançamos, rimos, também chorámos, desenhámo-nos uns aos outros, andamos aos ombros uns dos outros, saltámos nas poças, gritámos, cantámos, dançamos, abraçámos e vivemos uma alegria sem fim. Eu, eu modestia à parte, sinto um orgulho enorme por ser o maestro daquela orquestra. Não por cantarmos bem mas porque a alegria que sentimos quando estamos todos juntos é contagiante, porque os laços que estabelecemos quando estamos juntos sobrevivem a meses de distância, a mais de 11.000 kms de distância e porque as lágrimas que derramamos quando nos despedimos são genuinas! Aquelas crianças são genuinas e eu, eu não sei se deva ficar triste ou contente, orgulhoso ou frustrado, realizado ou preocupado ao saber, pelo mais velho, que quando fui embora, depois da alegria daquela tarde, deixei mais de metade dos pequenos grandes benfiquistas a chorar. Aqueles miudos que nunca choram! O que sei é que vou voltar e no fim, podemos chorar de novo, mas até essa hora vamos ser felizes de novo como se estes dias que agora passam nunca tivessem acontecido. Sei que estes dias foram óptimos na vida deles, onde vivemos momentos fantásticos e, de certa forma, consegui contribuir, de novo, para o presente e futuro deles. Só por isso, valeu a pena.
Por fim os obrigados que não podem faltar. Obrigado a quem já me recebeu em Portugal, não posso ser hipócrita e negar que, por um lado, é bom estar de volta. Obrigado a quem acompanhou as parvoíces que aqui fui escrevendo, é um gosto enorme viver esta aventura convosco. Um obrigado especial aos meus avós, pelo exemplo, pela dedicação com que seguem o blog e pela ajuda que lá fazem chegar. Obrigado aos Castedos, por todas as ideias que podem contribuir para ajudar, pelas roupas, pelas bolas de futebol, pelo material escolar e pelos programas que me ajudam a fazer com os meus pequenos grandes benfiquistas. Um obrigado aos meus pais e irmã por tudo.
Para encerrar, um obrigado à Mavis e a todo o touch a life, pelo exemplo e pela vivência! Jamais esquecerei aquela casa! À kilt, aos 15 pequenos grandes benfiquistas... que se mantenham benfiquistas que o teacher Zé já ai aparece de novo e castiga os que não se lembrarem do glorioso, continuem felizes e alegres com os valores e atitudes que vos caracterizam e que tanto admiro, comam bem que eu logo vos aperto de novo, tomem conta uns dos outros e... até já meus meninos!






















