Os miúdos estão bem e recomendam-se. Pelo menos foi essa a sensação que tive. Não sei se porque estava à espera de pior ou por já estar "calejado", mas fiquei satisfeito com o que vi. Continua a impressionar? Continua. Continuam em condições quase miseráveis? Continuam. Continuam felizes e alegres? Continuam. Continuam com uma união e solidariedade sem igual? Continuam. Continuam benfiquistas? É claro!!
Regressei à Kilt. Tanto que esperei por esse momento. Melhor sensação de sempre.
Fui com o Sovann. A casa nova é longe e um bocado no meio do nada, sabia que era a caminho dos templos, que tinha que virar à direita para uma estrada de terra e depois à esquerda. Não me lembrava em quais. Em todas perguntava se era nesta e o caminho parecia infinito. Parecia um moço pequeno, sempre a perguntar se já chegámos (o "tenho chichi" não disse). Estava um calor do pior, transpirávamos por todos os lados e, ao fim de meia-hora a pedalar, chegámos.
Parei à porta antes de entrar. Tinha chegado o momento. Estava nervoso, sentia o coração a bater.
O Sovann entrou primeiro. Quem estava ali logo à entrada era a mulher do Bel e o Chamerang (um dos mais velhos) que se depararam logo comigo. Reações? O Chamerang parou o que estava a fazer e veio disparado até mim para me dar um abraço, enquanto a mulher do Bel soltou um "Oh my god" e começou numa alegria imensa a gritar "Surprise, surprise, children, surprise".
Os outros pequenos grandes benfiquistas estavam lá para trás e apareceram todos duma vez.
Foi estranho. Eles ao ver-me mandavam os seus sorrisos lindos e depois iam parando, ali à minha frente, sem saber bem como reagir. Eu também não sabia. Eram muitos, apareceram todos duma vez e ficámos ali a olhar uns para os outros. Começamos nos "how are you?" e eu a fazer-lhes festinhas e a tentar meter-me com todos. Eles, envergonhados, iam falando em Khmer e às tanta riram-se. Percebi que estavam a comentar a barba do Teacher Zé. A vergonha passou...
Faltava o Chamerong (outros dos mais velhos), que ainda não o vi, e a Soklay que vi hoje e que quando me viu veio disparada a correr para o meu colo.
Eles estão iguais, não cresceram assim tanto. Pelo menos tanto como eu tinha medo que crescessem. Deu um Sarath um pulo que o fez ficar quase do meu tamanho e o bebé, filho do Bel, que no ano passado tinha 1 ano e este ano está enorme, já anda, já fala e ao que parece, já gosta de mim.
Estas 2 tardes foram boas, parece que continuámos onde tínhamos ficado há um ano atrás. É fim-de-semana, não há aulas para ninguém e estamos numa alegria sem precedente. Eles não me largam e parece que se lembram de tudo. Vejo-os mesmo alegres. Hoje estava uma chuva do pior, os 3 mais pequenos andavam aos berros a brincar na chuva e a saltar nas poças. A Sochea, volto e meia olho para ela e está a dançar. A Sokay, super envergonhada e desconfiada ao inicio, hoje estava nas escadas a cantar para todos como se tivesse um microfone. A Sokim ainda não fez uma única birra. Os rapazes não param quietos. Hoje andaram a jogar à bola na chuva. Ontem jogámos ao "monkey" e ao muro do chines e não sei explicar, além dessas brincadeiras todas e da alegria enorme, sinto-os ainda mais carinhosos e a querer partilhar tudo comigo. Parece que confiam ainda mais em mim e que sentem que não me esqueci deles ao longo do ano nem os abandonei, provavelmente como aconteceu com a maioria dos voluntarios que ja tiveram. Falam muito das coisas que lhes enviei e das vezes que falaram comigo. A Sochea ainda ontem me agradeceu por lhe ter ligado no dia dos anos dela (fez em Julho) e eu tão bem me lembro da alegria dela nesse dia por alguém se ter lembrado.
Ontem foram buscar as fotos que lhes tinha dado no ano passado e estivemos ali, a recordar tudo, como que a ver tudo de novo. As mais pequenas volta e meia começavam a cantar e a dançar o Macarena. Começaram a ver se algum deles fazia anos nestas duas semanas para fazermos outra festa de anos (estamos com azar que nenhum faz, pelo menos os que sabem quando nasceram). Mostraram-me a casa nova, na casa de banho riram-se como se soubessem o suor que eu ali deixei. Mostraram-me as roupas que tinham recebido diretamente de Portugal. O Bel ainda ontem estava com uma t-shirt que em tempos estava numa gaveta do meu quarto sem nunca de lá sair. Mais, as bonecas e o carro (nem me lembrava desse) estavam ali, na mesa (que na realidade é uma cama) da cozinha a provar como eles ainda hoje brincam com eles. Hoje além das fotos que eu no ano passado lhes dei, mostraram-me todas as fotos que têm e tão bem guardadas estão, são fotos deles em pequenos e muitas delas ainda com as suas familias. Foram como que se apresentando em pequenos, os seus pais, e não sei, estavam como que me a deixar entrar ainda mais nas duas vidas.
Oh Zé vê-la se publicas um filme a dançar a marcarena em modo t-shirt molhada ?
ResponderEliminarGrande abraço maluco,
António C