Ultimo sábado por cá e já tenho saudades destes dias tão gratificantes.
Foi o ultimo sábado no touch a life desta vez, mas jamais será o ultimo. Ainda não fui embora, ainda lá volto segunda mas sábado é sábado, é mais tempo, são mais voluntários e são muitas mais refeições... já tenho saudades!!
Hoje foi mais do mesmo, e tão bom que é. Acordar antes 7h, ainda a rapaziada em Portugal está no seu inicio de noite e eu a cortar as cebolas. 7:05h e já choro. Choro eu e muitos outros, cada um de seu canto do mundo, cada um com uma historia fascinante para contar.
A professora de inglês da semana passada estava lá de novo, fez uma pesquisa intensa sobre Portugal e deu a aula dela. Chateou-se comigo, como é que eu não me lembrei da cortiça?! É verdade, mas como é que haveria de lembrar da cortiça? Depois veio o galo de Barcelos que ao que parece dá felicidade e sorte, também não sabia. Diz que a aula foi um sucesso, os miúdos desenharam a bandeira portuguesa e acabou tudo a ouvir Fado. Ela ao que parece, adorou o nosso Fado.
Teacher Zé, um dia que voltes a dar aulas, mete a tocar Fado na sala de aula só para ver a reação, mas não o cantes tu! Melhor ainda, experimenta o cante!
A manhã foi o habitual, apareceram montes de ananases, tenho um dedo com 5 cortes como resultado! A Mavis qualquer dia não tem curitas para me dar. Depois chegou o arroz e também tenho umas belas bonhas na mão à pala disso. Contudo, a minha resistência física já está de novo invejável. Hoje já consegui estar na tarefa dos homens nas 700 doses, ou seja, o tempo todo que são mais de 2 horas. Volta e meia alguém me levava um copinho de água fria para beber. O suor é mesmo muito, lenço na cabeça para não escorrer para a comida e t-shirt toda manchada e colada ao corpo. De bingo em bingo, aquilo fez-se. Good job, disse-me o Trevor no fim. E foi. Nem havia mais homens para aquilo, só os cambojanos que chegaram da escola portanto ainda bem que ainda cá estava.
Depois omeletes, almoço e sopas. Nas sopas descansei, fiquei o tempo quase todo a observar de longe porque havia mais que gente suficiente. A holandesa que lá estava viu-me e veio-me dizer ao ouvido "such a great organization, isn't it?". Era mesmo isso que estava a pensar, e se é. É incrível, isto sim é uma organização a sério, não aquelas organizações multinacionais que só vêm dinheiro e resultados. Ali sabe-se o que é importante, tem-se outra perspectiva da vida e quem por lá passa ganha essa perspetiva também. Quem lá vai, quer voltar.
Ver tudo aquilo de fora então é arrepiante. Já o descrevi várias vezes, mas só mesmo vinvendo a alegria daquelas pessoas, ao som daquelas musicas que tanto ambiente criam, a cozinhar e preparar refeições para as crianças cambojanas. A causa mais nobre que já presenciei na vida e tão bem que fazem as chapadas que levas na cara. Chapadas das pessoas que ali estão, duma simplicidade e alegria imensa que dedicam as suas vidas àquilo. Chapadas de todos os miúdos que vivem em condições miseráveis mas que não desistem, não se queixam e não param de sorrir. Chapadas que não sentes, que não te deixam os dedos marcados na cara mas que te marcam para sempre!
Entretanto, tudo pronto para a entrega. Eu estava para ir na mota e na mesma função da semana passada (a Mavis não era para ir que está mal das costas), ou seja, a comandar a entrega. Um honra, sem duvida.
Tudo pronto para arrancar e a mota do tuk-tuk não pegou. Um filme que nunca tinha visto. Foram os cambojanos tentar resolver o problema mas nada, foram comprar mais gasóleo e tudo mais mas teve difícil. Entretanto o tempo foi passando e as horas das entregas são para cumprir, há crianças à espera.
Ora bem, para não perder tempo a solução encontrada foi ir de mota até às 2 primeiras paragens e depois logo se via. O escolhido pela Mavis fui eu, só não sabia era com quem ir. Fui com uma cambojana que fala inglês e Khmer (muito útil). Só que, como é obvio, uma mota não dava para 2 mais 50 doses de arroz, 50 sopas, 50 omeletes e um sacão enorme cheio de rebuçados e bolachas. Foram 2 motas. Eu levava os 50 kgs de arroz em cima, mais as omeletes e ia com o rabo ja fora da mota. Teve a sua piada.
Na 1ª paragem tudo normal, na 2ª já não lá estava ninguém mas, em khmer portanto sem eu perceber como, lá arranjaram maneira de os chamar. Depois tivemos que esperar uma eternidade portanto eu fiquei na brincadeira com os miúdos, havia uma bola e tudo. No final o jogo já era eu meter um miúdo em cada ombro e os outros atirarem-se e treparem para cima de mim para ver com quantos é que eu aguentava. Fui aos 5, e nenhum caiu. A t-shirt ficou bem castanha, bem transpirada e quase até aos joelhos com tanto puxão. Na espera também fui atacado pelos mosquitos, tenho os pés e tornozelos cheios de picadas. Depois lá fomos até à 3ª paragem onde já estava o tuk-tuk e os outros voluntários todos, incluindo a Mavis que decidiu ir dada a confusão já instalada. Ainda assim, disse que o livrinho continuava comigo. Pelo caminho, fomos por um atalho qualquer na moto, um caminho super estreito, uma perna a bater numa roseira e, além dos dedos das mãos, mais arranhões agora nas pernas.
Tudo estava de novo normal, com o tuk-tuk e as motos na 3ª paragem, apenas muito atrasados. Despachámos aquilo e seguimos. Na seguinte, nova avaria e os cambojanos de volta daquilo. Para melhorar a situação, veio a chuva. Quem estava no tuk-tuk safou-se, os da moto, como eu, esqueçam. Trovoada para cima deles. E debaixo dessa chuva intensa, fez-se o resto das entregas. Eu à chuva a tentar molhar o menos possível o caderno da Mavis mas era impossível, so de virar a pagina encharcava aquilo. Na ultima entrega já era de noite... Foi difícil? Foi. Foi um dia em cheio, mas fui super útil. Valeu a pena? Se valeu.
Quanto ao cenário visto.. não há muito mais a acrescentar ao descrito na semana passada. Talvez menos crianças devido ao atraso e à chuva mas fica-me na memória a cabeça dum senhor com um alto bem saliente na testa (deve ser tumor), uma criança só com o dedo mindinho no pé porque tem tipo o pé cortado ao meio (aqui manda-se cortar quando ha infeções grandes) e depois aqueles miúdos todos, ali à chuva à espera da sua vez para a comida. Sim, a chuva e a lama fizeram daquilo um cenário bem mais dramático, mas não quero entrar por aí. Quando acabei a minha tarefa e faltava a fila das doses individuais fui meter-me com os pequenos todos. Muitos deles já me conhecem, eu é que ainda não que eles são muitos e, aos meus olhos, são todos parecidos o que não quer dizer que não goste deles ou que os desprezo porque não é de todo isso. Não são chineses mas são asiáticos, não são pretos nem brancos mas todos têm aquele tom de pele, os olhos meio em bico, o nariz pequeno e os dentes podres... São fantásticos os miúdos mas memorizá-los todos assim é difícil.
Uma fila enorme, todos à chuva e a maior parte a tremer de frio. Fui percorrendo a fila, um por um, a abraçar e esfregar os braços daqueles que tremiam de frio. Arranjei para lá um jogo com os dedos das mãos que eles gostam de jogar e às tantas já dançava e fazia o aquecimento dos braços, a estalar as mãos e tudo mais (só parvoíces) e eles imitavam. Foi bom, deixaram de tremer e a fila às tantas desapareceu. Houve comida para todos, foi optimo.
De regresso a casa do touch a life, encharcado, todo porco, com sangue, terra e lama por todo o lado a Mavis veio dar-me um abraço enorme e comentar comigo que tinha feito de propósito que assim ia para Portugal descansado que já não ia querer voltar no próximo sábado. Mais sabe ela que estarei de volta as soon as possible. Afinal, já tenho saudades e... aquilo faz bem à alma!
Zé. Apesar de ser uma frase (já feita) de um poeta português (sempre actual), ao ler o teu post de hoje, não posso de o deixar como comentário:
ResponderEliminar«O valor das coisas não está no tempo que elas duram, mas na intensidade com que acontecem. Por isso, existem momentos inesquecíveis, coisas inexplicáveis e pessoas incomparáveis.».
O galo de Barcelos dá mesmo sorte! Que eu me lembre tiveste 3 galinhos de Barcelos(após um jogo para relembrar) que se mantiveram no teu quarto desde Novembro de 2002.(deste-os de prenda ao teu pai)
ResponderEliminarO galo de Barcelos dá mesmo sorte! Que eu me lembre tiveste 3 galinhos de Barcelos(após um jogo para relembrar) que se mantiveram no teu quarto desde Novembro de 2002.(deste-os de prenda ao teu pai)
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