segunda-feira, 12 de setembro de 2016

À descoberta da casa nova - 1 ano depois!

O que ha a dizer como ponto de situação? É tudo uma questão de perspectiva. É o chamado nem 8 nem 80. Como diriam os entendidos, podemos olhar para o copo meio cheio ou para o copo meio vazio. Eu, como não sou entendido de nada, falo apenas em coisas boas e coisas ainda a melhorar.

Coisas boas:
A primeira grande noticia é que os filhos da ex-cozinheira, irmãos do Sarath, que passavam muitas dificuldades, estão de volta à kilt e estão com o irmão mais velho. Apesar de longe da mãe, acredito que estão muito melhores ali. Felizmente, também já vão à escola. Só isso é motivo de enorme alegria para mim.

A casa nova, para mim, não deixou de ser uma surpresa agradável. Se bem se lembram (ou não!), no ano passado, quando fui embora, a casa era isto:
Como podem ver, não tinha quase nada, apenas dois quartos no piso de cima (são os quartos dos adultos agora) e uns tanques que, se bem lembram, eu andei a enterrar para fazer de casa de banho.

Agora está bem diferente. Tal como lhes tinha sugerido, fizeram um quarto por baixo da casa que ja tinham, aproveitando assim o chão da casa de cima para fazer de tecto. O chão está com cimento e bom e as paredes de tijolo. No dia em que la cheguei, estavam a montar a ultima porta, de madeira! Esse é quarto, o das meninas, tem la as 2 camas para todas e muito muito espaço. Está optimo.
Além disso, pintaram as paredes e os pilares todos de verde, da cor do telhado, está muito giro. 
Mais coisas, construíram também uma entrada para a casa nova. Fizeram como que uma extensão de metal do telhado, para cobrir as escadas e toda a parte da frente. Assim, têm uma entrada com uma mesa e algumas das coisas que eles vendem expostas. Ora vejam:




As casas de banho, lá para trás da casa ao fundo do terreno, também estão bem melhores. Ainda estão por acabar mas fizeram 3, cada uma com uma daquelas coisas para cagar de pé, e todas com tijolo e umas especies de porta que são plásticos. Valeu a pena o esforço do ano passado. Têm mais 2 tanques com agua que é onde eles tomam banho, um para os rapazes outro para as raparigas. Noutra zona também montaram um chão bom e têm acesso ao poço, portanto quando faz falta água é só dar ao braços.



 
Ainda há mais... fizeram uma sala de aula. Logo quando se entra do lado direito (onde o teacher Zé tinha dito quando se armou em arquitecto) e está bem melhor que a outra. Uma mesa grande, um quadro novo e um tecto de metal onde não chove.


Para um ano e feito por eles, acho que não está nada mau. Os recursos são poucos ou nenhuns, nem percebi bem onde é que foram buscar tanta coisa. A verdade é que eles também estão bem organizados (quem diria!). Nestes 3 dias ja percebi como toda a logística está montada. O mais velho já saiu da Kilt (já explico) pelo que os mais velhos agora são o Chamerong e o Chamerang (é mesmo assim os nomes). São eles que vão construindo tudo isto, que têm direito a usar a mota e vão safando todas as situações que apareçam. Todos os dias vão de mota à noite buscar o Sarath ao mercado que está por lá a vender. As duas raparigas mais velhas, cozinham para aquela malta toda e ajudam em toda a lead doméstica. Têm 14 e 12 anos mas fazem bem mais que eu com 24. Os mais pequenos, dado que alguns têm 5 anos, a ajuda que dão é desenrrascarem-se sozinhos. Banhos, roupas, comidas e assim, são autónomos. Os de 10, 11 e 12, limpam as coisas mais básicas. Ontem quando cheguei estavam os 3 de vassoura (vassouras de cá que são feitas por eles na altura com ramos de arvores) a varrer o chão.

Têm conseguido alguns apoios. Ainda ontem passou por lá uma organização a deixar 3 sacas de arros, bolachas, cadernos e lapis para eles. Foi uma alegria e um alivio. Foi a primeira vez e não sei se é para continuar mas este mês está resolvida a questão da comida. Hoje estou de volta duns papéis da AMI, eles além de tudo o que fazem, ajudam financeiramente até 5 projectos por ano em países em desenvolvimento. Vamos candidatar-nos. Deve ser difícil, mas não me parece impossível e isso era mesmo uma grande grande ajuda. A ver se preencho tudo certinho e vamos acender uma velinha para que seja aceite.

Mas, e porque há sempre um mas, ainda há muita coisa a fazer e a melhorar.

Coisas a melhorar
A primeira não têm melhora. A casa é longe, eles estão longe da escola e a vida deles não é mais que casa e escola por causa da distancia. É meia hora a pedalar para mim, para eles nas bicicletas a cair de podres e onde têm que ir 2 na mesma, fica difícil.
A distância também foi motivo para não terem tido mais voluntarios. Não houve mais aulas de ingles e nota-se bem, esqueceram quase tudo. Nenhum voluntario está disposto a ir para o meio do nada dar aulas. A bicharada é imensa ali, saio de lá todo picado ainda que ande sempre de repelente atrás.

Na casa, se as meninas têm um quarto optimo, os rapazes estão no extremo oposto. O quarto deles é madeira no chão e umas canas e uns troncos a segurar os plásticos que cobrem aquilo. Camas e assim claro que não existem, além que devem dormir bem apertados.



Fica a faltar a cozinha. Essa está na parte de trás da casa, encostada à parede do quarto das meninas, está coberta é certo, mas está neste estado:






A higiene é de facto o maior problema. É aflitivo. Nenhum criança merece um sitio assim para comer. E sim, para além da higiene da cozinha, a higiene dos miúdos também não está de todo famosa.
Desde que os kits de higiene do teacher Zé acabaram, não ha mais shampoo naquelas cabeças nem nada para além de água naqueles corpos. O cabelo dos miúdos está super empapado, cheio de terra e com piolhos (não se preocupem que eu trouxe a maquina para rapar o cabelo se for necessário). A lavagem de dentes nos rapazes não existe, ja nenhum tem escova que foram usadas para outras coisas e as raparigas que têm, são as de há um ano atrás. Esta parte é a mais preocupante e aquela onde eu vou investir os meus tostões, pelo menos parece-me ser esta a grande prioridade.
Isso e comprar uns calções para o La, o rapaz mais pequeno de todos, de 6 anos, que só tem uns calções, os azuis que lhe dei no ano passado para ele poder ir para a escola e que mesmo assim estão largos. Quando os molha, mais que não seja porque vai saltar nas poças e fazer pinotes na chuva, depois têm que andar com uma toalha à volta da cintura que coitadinho está-lhe sempre a cair.

Por fim, a rotina está feita, da melhor maneira possível, é certo, mas não está propriamente boa para alguns. O Sarath é quem está no mercado a vender mas, se no ano passado o mercado era 3 dias por semana e começava as 4 da tarde, agora é todos os dias e começa às 11h da manha. Portanto o rapaz passa lá dias e dias, sozinho ou com os amigos das barracas ao lado a tentar vender qualquer colar ou pulseira. Ele tem 13 ou 14 anos. Por fim, o Sovann, o mais velho, que saiu da Kilt. Têm trabalho e sitio onde dormir o que é optimo mas... na verdade, tem 3 trabalhos ao mesmo tempo. Está na recepção de um hotel todos os dias, às segundas faz o turno da noite noutro hotel, e à sexta igual noutro. Nestes dias dorme 3 horas por dia e nem são seguidas. Dorme 1h à noite e 2h de manha. Além disso saiu da kilt para estar mais perto mas está um bocado longe e de bicicleta perde muito tempo em deslocações. Ontem disse-me que queria comprar uma mota e estava a tentar juntar dinheiro para isso, custa 150 dólares e ainda lhe falta bastante... É impressionante não é? Tem 20 anos, ele sim trabalha que nem um animal, mal consegue poupar e conta-me isto tudo a rir e sem uma única queixa.

E é isto, tentei descrever apenas o que se passa sem falar em emoções. Assim cada um após ler isto pode ficar com a versão do copo meio cheio ou meio vazio mas eu continuo a achar que só passou 1 ano e estamos num bom caminho. Uma casa não se constrói de um dia para o outro em Portugal, quanto mais aqui, uma casa para muitos, sem recursos e construída em parte por rapazes mais novos que eu. Estamos num bom caminho, há que continuar a ajudar.

E por falar na continuação de ajuda, e para acabar que isto já vai bem longo, devo um obrigado a todos aqueles que me fizeram chegar roupas ou brinquedos ao longo do ano para enviar e antes de vir para trazer. Não consegui trazer tudo mas tudo vai cá chegar, o que significa que todos os que falaram em dar qualquer coisa e que o assunto ficou no esquecimento também ainda vão a tempo.
Prima Rita e toda a casa Barros, o quarto das meninas está cheio de bonecas (sendo que algumas sem cabeça) e há roupas para vestirem as bonecas por todos os lados. Além disso, no 1º dia também me foram buscar os seus peluches, eram aqueles que tão bem me venderam na banca que tinham montada em casa antes do Natal.
Tia Maria e toda a casa Castedo, se já têm todo um reconhecimento conquistado nos maristas, acho que mais dia menos dia os castedos também passam a ser reconhecidos na escola de Khmer com a quantidade de material escolar que chega com etiquetas com esse nome. Além de tudo o que já tinham dado antes, no domingo encarreguei-me de entregar as coisas que tinha trazido desta vez. A bola de futebol de Portugal é o delirio dos rapazes, primeiro fizeram dela capacete, depois foram enche-la e não param de jogar. As roupas foram muito apreciadas, os rapazes vestiram logo as t-shirts, as meninas ontem ja estavam 2 delas com vestidos novos. Agora dizem que tenho que mostrar fotos dos primos porque querem conhecer quem lhes anda a dar roupa tão bonita. Os lapis de cor segundo eles são ótimos. Aliás, são tão bons que a brincadeira quando os receberam foi pintar os labios com eles. Aos Castedos, antes de verem as fotos que espero que os deixem bem orgulhosos (é motivo para isso) um muito, muito grande obrigado.





















3 comentários:

  1. Roma não se fez num dia e, no meu ponto de vista, houve muitas melhorias em relação ao ano passado (eu gosto de ver o copo meio cheio confesso!). Cá em casa ficamos muito contentes de ver que gostaram de tudo o que mandámos! Os vestidos em especial, posso dizer que lhes tenho muito carinho e é ótimo saber que estão nas mãos de meninas tão bonitas :)

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    1. Estão muito bem entregues, acredita. E vão ser usados ao máximo também. Obrigado

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  2. O Tiago ficou admirado, mas muito agradado, de ver as suas t-shirts preferidas...

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